Traumas Sociais: Como Eles Nos Afetam por Dentro e Entre Nós
- Psicóloga Maeli Calmon
- 22 de jan.
- 3 min de leitura
Traumas sociais não são apenas experiências de sofrimento individuais — eles nascem no encontro entre uma pessoa e estruturas sociais de opressão, como racismo, discriminação e exclusão. Essas experiências se entrelaçam à vida psíquica, afetando a saúde emocional e as relações interpessoais ao longo do tempo. O trauma social pode ser cumulativo — quando situações repetidas de violência simbólica e material se somam — e manifesta efeitos duradouros sobre o bem-estar psicológico, a percepção corporal, a confiança social e a forma como nos relacionamos com outros e conosco. Estudos recentes mostram que o estresse e a rejeição baseados em características sociais, como raça, aumentam sintomas de sofrimento emocional e estresse pós-traumático, contribuindo para desigualdades de saúde mental e impacto nas redes de apoio social.
O que são Traumas Sociais
Traumas sociais são experiências de sofrimento que emergem do contexto de relações sociais injustas, desiguais e opressivas. Eles incluem episódios de racismo, discriminação, exclusão, estigmatização e rejeição social repetidos ou estruturais, e não se limitam a um único evento violento. Esse tipo de trauma muitas vezes é vivenciado em interseção com gênero, classe e outras marcadores sociais de diferença, produzindo sofrimento que se acumula ao longo da vida.
Em meu artigo proponho uma abordagem decolonial para pensar sofrimento e adoecimento psíquico de mulheres negras com ansiedade como produto de tensões sociais e experiências interseccionais de opressão — destacando que as violências raciais, de gênero e outras não apenas ocorrem, mas têm potenciais vínculos diretos com o sofrimento emocional.
Como Traumas Sociais Afetam a Saúde Emocional
1. Carga Psicológica e Sintomas de Sofrimento
Experiências de rejeição social baseada em raça estão associadas a maiores sintomas de estresse pós-traumático, depressão e sofrimento emocional, tanto em contextos individuais quanto coletivos. Isso inclui efeitos diretos na autoimagem, medo persistente, hipervigilância e aumento de ansiedade.
2. Redução da Percepção de Status Social
O estresse relacionado à discriminação pode estar ligado a uma diminuição da percepção de valor social e status, o que por sua vez aumenta sintomas de PTSD (transtorno de estresse pós-traumático) e depressão, mesmo quando ajustado para outros fatores socioeconômicos.
3. Trauma Acumulativo e Dimensões Múltiplas
Trauma social muitas vezes não se manifesta como um único evento, mas como uma carga cumulativa ao longo do tempo — causada por microagressões, tratamento desigual, barreiras institucionais e exclusão constante. A literatura entende que um grande número de associações entre discriminação racial e sintomas de trauma tem resultados estatisticamente significativos, indicando que esse fenômeno não é isolado nem raro.
Impactos nas Relações Interpessoais e na Vida Social
1. Confiança e Relações Interpessoais
Ambientes que repetidamente marginalizam indivíduos corroem a confiança social. Pessoas que vivenciam traumas sociais podem apresentar maior medo da rejeição, dificuldades em formar vínculos seguros e menor abertura para intimidade emocional.
2. Apoio Social e Isolamento
A exclusão e a discriminação reduzem o acesso ao apoio social — um elemento protetor importante em momentos de crise psicológica — o que pode intensificar sentimentos de isolamento e solidão. Pesquisas indicam que a exclusão social crônica pode ser um fator contributivo para trauma psicológico.
3. Redes de Relação e Sanção Social
Quando estruturas sociais negam oportunidades, reduzem possibilidades de pertencimento e limitam o reconhecimento social, as consequências extrapolam o indivíduo: impactam famílias, comunidades e reforçam ciclos de sofrimento coletivo. Essa dimensão coletiva é essencial para entender trauma social como fenômeno que vai além do intrapsíquico.
Por que Importa Reconhecer o Trauma Social
Entender trauma social é reconhecer que o sofrimento psíquico não ocorre apenas “dentro” das pessoas, mas tem raízes profundas em dinâmicas sociais injustas. Isso reforça a necessidade de abordagens clínicas, comunitárias e políticas que:
integrem as dimensões sociais do sofrimento;
considerem as desigualdades estruturais como fatores de risco;
promovam intervenções culturalmente responsivas e decoloniais;
Como você explora em seu trabalho clínico com mulheres negras, não basta olhar o sintoma isolado — é necessário situar sofrimento e ansiedade no mundo social de quem vive a opressão.
Referências
Calmon, M.S. (2022). Estratégias decoloniais de atendimento clínico a mulheres negras que apresentam sintomas de ansiedade. Tempo, Espaço e Linguagem – TEL, v. 13 nº 1. DOI:10.5935/2177-6644.20220016.
Chin, D. et al. (2025). Race-Based Social Rejection and Mental Health: The Role of Racial Identity. Trauma Care.
Carter, R.T. et al. (2023). Indirect effect of race-related stress on traumatic stress and depression symptoms via subjective social status. Journal of Community Research.
Williams, K. (2020). Social exclusion, social support, and trauma. Journal of Psychological Trauma.
Williams, D.R., Mohammed, S.A. (2013). Racism, racial discrimination, and trauma: a systematic review of the social science literature. American Psychologist.




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