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Traumas Sociais: Como Eles Nos Afetam por Dentro e Entre Nós


Traumas sociais não são apenas experiências de sofrimento individuais — eles nascem no encontro entre uma pessoa e estruturas sociais de opressão, como racismo, discriminação e exclusão. Essas experiências se entrelaçam à vida psíquica, afetando a saúde emocional e as relações interpessoais ao longo do tempo. O trauma social pode ser cumulativo — quando situações repetidas de violência simbólica e material se somam — e manifesta efeitos duradouros sobre o bem-estar psicológico, a percepção corporal, a confiança social e a forma como nos relacionamos com outros e conosco. Estudos recentes mostram que o estresse e a rejeição baseados em características sociais, como raça, aumentam sintomas de sofrimento emocional e estresse pós-traumático, contribuindo para desigualdades de saúde mental e impacto nas redes de apoio social.


O que são Traumas Sociais


Traumas sociais são experiências de sofrimento que emergem do contexto de relações sociais injustas, desiguais e opressivas. Eles incluem episódios de racismo, discriminação, exclusão, estigmatização e rejeição social repetidos ou estruturais, e não se limitam a um único evento violento. Esse tipo de trauma muitas vezes é vivenciado em interseção com gênero, classe e outras marcadores sociais de diferença, produzindo sofrimento que se acumula ao longo da vida.


Em meu artigo proponho uma abordagem decolonial para pensar sofrimento e adoecimento psíquico de mulheres negras com ansiedade como produto de tensões sociais e experiências interseccionais de opressão — destacando que as violências raciais, de gênero e outras não apenas ocorrem, mas têm potenciais vínculos diretos com o sofrimento emocional.


Como Traumas Sociais Afetam a Saúde Emocional


1. Carga Psicológica e Sintomas de Sofrimento


Experiências de rejeição social baseada em raça estão associadas a maiores sintomas de estresse pós-traumático, depressão e sofrimento emocional, tanto em contextos individuais quanto coletivos. Isso inclui efeitos diretos na autoimagem, medo persistente, hipervigilância e aumento de ansiedade.


2. Redução da Percepção de Status Social


O estresse relacionado à discriminação pode estar ligado a uma diminuição da percepção de valor social e status, o que por sua vez aumenta sintomas de PTSD (transtorno de estresse pós-traumático) e depressão, mesmo quando ajustado para outros fatores socioeconômicos.


3. Trauma Acumulativo e Dimensões Múltiplas


Trauma social muitas vezes não se manifesta como um único evento, mas como uma carga cumulativa ao longo do tempo — causada por microagressões, tratamento desigual, barreiras institucionais e exclusão constante. A literatura entende que um grande número de associações entre discriminação racial e sintomas de trauma tem resultados estatisticamente significativos, indicando que esse fenômeno não é isolado nem raro.


Impactos nas Relações Interpessoais e na Vida Social


1. Confiança e Relações Interpessoais


Ambientes que repetidamente marginalizam indivíduos corroem a confiança social. Pessoas que vivenciam traumas sociais podem apresentar maior medo da rejeição, dificuldades em formar vínculos seguros e menor abertura para intimidade emocional.


2. Apoio Social e Isolamento


A exclusão e a discriminação reduzem o acesso ao apoio social — um elemento protetor importante em momentos de crise psicológica — o que pode intensificar sentimentos de isolamento e solidão. Pesquisas indicam que a exclusão social crônica pode ser um fator contributivo para trauma psicológico.


3. Redes de Relação e Sanção Social


Quando estruturas sociais negam oportunidades, reduzem possibilidades de pertencimento e limitam o reconhecimento social, as consequências extrapolam o indivíduo: impactam famílias, comunidades e reforçam ciclos de sofrimento coletivo. Essa dimensão coletiva é essencial para entender trauma social como fenômeno que vai além do intrapsíquico.


Por que Importa Reconhecer o Trauma Social


Entender trauma social é reconhecer que o sofrimento psíquico não ocorre apenas “dentro” das pessoas, mas tem raízes profundas em dinâmicas sociais injustas. Isso reforça a necessidade de abordagens clínicas, comunitárias e políticas que:

  • integrem as dimensões sociais do sofrimento;

  • considerem as desigualdades estruturais como fatores de risco;

  • promovam intervenções culturalmente responsivas e decoloniais;

Como você explora em seu trabalho clínico com mulheres negras, não basta olhar o sintoma isolado — é necessário situar sofrimento e ansiedade no mundo social de quem vive a opressão.


Referências


  • Calmon, M.S. (2022). Estratégias decoloniais de atendimento clínico a mulheres negras que apresentam sintomas de ansiedade. Tempo, Espaço e Linguagem – TEL, v. 13 nº 1. DOI:10.5935/2177-6644.20220016.

  • Chin, D. et al. (2025). Race-Based Social Rejection and Mental Health: The Role of Racial Identity. Trauma Care.

  • Carter, R.T. et al. (2023). Indirect effect of race-related stress on traumatic stress and depression symptoms via subjective social status. Journal of Community Research.

  • Williams, K. (2020). Social exclusion, social support, and trauma. Journal of Psychological Trauma.

  • Williams, D.R., Mohammed, S.A. (2013). Racism, racial discrimination, and trauma: a systematic review of the social science literature. American Psychologist.

 
 
 

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