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O que sabemos de nós?


Eu sempre fui uma pessoa curiosa. Quando ainda não lia, as minhas perguntas eram direcionadas ao conhecimento e quando comecei a ler, disparei a apreender o mundo por inteiro. Era ávida por conhecimento. Tanto assim que eu comecei a ser presenteada com livros e para mim eram os melhores presentes.


As relações familiares sempre foram atravessadas pela racialidade, não somente por ser parte de mim uma família interracial, mas também porque estruturalmente o Brasil se forjou a partir dessa realidade de mundo; a partir da colonização. Então quando eu ingressei na Universidade duas coisas faziam parte do meu repertório: o hábito da leitura e o conhecimento básico sobre as relações. Não deu outra. Essa interação resultou em uma estudante de psicologia que se interessava demais sobre comportamento humano e de menos com rótulos e análises quantitativas de padrões. Eu sempre fui "de Humanas" e quanto mais eu mergulhava nesse conhecimento mais eu descobria sobre mim, sobre as minhas relações e sobre as pessoas. Nada incomum e muitíssimo esperado.


Acredito que isso tenha me empurrado para o ramo das ciências sociais para compreender como construímos uma sociedade que não consegue se emancipar de relações violentas e discriminatórias. E é um pouco disrruptivo como a pesquisadora se debruça em um objeto de pesquisa que está em tudo o que ela conhece e como tal, há uma consequência nesse mergulho em busca do conhecimento: vez ou outra isso respinga em mim fortemente.


Como toda intelectual eu também escrevo. Comecei com um blog e se tornou algo como um desabafo e uma estratégia de comunicar às pessoas sempre que elas reproduziam violências que me atravessavam e eu não queria que isso nos afastasse. A escrita sempre foi pedagógica para mim e a melhor expressão dos meus sentimentos. Mas em um dado momento eu a deixei de lado graças a esse sistema econômico/ social que engole a gente e nos aprisiona em um eterno loop de produção e reprodução; em um mundo de maquinarias e IA's a corrida contra o tempo que nos lentifica vai nos mecanizando tal qual a lógica que nos serve. Nem nos conhecemos mais, já que não temos tempo de olhar para nós mesmas.


Eis que voltei a reler os autores e autoras que me deram tanto conhecimento e ao me confrontar com Grada Kilomba um trecho em sua introdução de Memórias de Plantação me deixou reflexiva. Nele ela conta que a sugestão de uma colega dela de que ela estava "se achando" por adentrar à academia e estar produzindo conhecimento, a paralisa e por um tempo ela para de escrever. Silencia-se. Do jeitinho que o algoz gosta! E ao retomar a sua altivez e voz ela percebe o quanto aquilo a atravessou e paralisou; os sujeitos querem dizer de nós, não o que nós somos, mas o que eles querem reconhecer em nós e

que rejeita em si próprios.


Decidi. Farei deste espaço o momento em que grito o que cotidiano que nos atropela, tenta me impedir de ecoar e agora não permitirei que o silencio leve de mim as palavras que a muito custo aprendi a falar e me fazer entendida. Aqui será sobre mim, sobre nós, sobre o mundo. E você é muito bem-vinde a adentrar.

 
 
 

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